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De quanto é o QI?

  • Foto do escritor: Michelle Ramos
    Michelle Ramos
  • há 8 horas
  • 6 min de leitura

O poço, o espelho, o vaso, o leque, o vazio e o humano no meio disso tudo.

Escalando a montanha de nossa ignorância.
Escalando a montanha de nossa ignorância.

Há algum tempo temos falado de inteligência artificial, de agora em diante IA nesse texto. No começo fiquei ressabiada. E no final também. Mas vou explicar a diferença. No começo a IA era a panaceia de todos os males. Ela ia roubar nossos empregos e nossas crianças. A vila entrou em polvorosa. Eu olhava e pensava: muito barulho por nada. E os primeiros feedbacks sobre o tema comprovovam minha hipótese. Mãos com 8 dedos, execuções de ações que pareciam ser feitas por crianças na pré-escola. Mas eis que o tempo passou, e na contemporaneidade estamos falando de meses, e a IA cresceu. Virou um adulto funcional fazendo formulas no excel. E programando, e dando conselho e sambando na cara da sociedade. Então eu resolvi brincar.


Minha primeira interação foi com o ChatGpT. E brincamos muito. Ele me ajudava a fazer lista de compras, analisava meu look do dia (a conversa ficou registrada como “verde e mostarda combinam”), ajudava com dicas de skincare, debatia sobre livros, fazia meu mapa astral, tirava cartas do tarô, jogava I Ching e só se negou a jogar os búzios e dizer meu orixá de cabeça, mas se ofereceu para me ajudar a encontrar um terreiro de responsa. Agradeci, mas declinei do favor. Então comecei a dar tarefas mais sérias para ele, como analisar meus dados de saúde do Apple Watch, me ajudar a montar treinos e cardápio de dieta, analisar minha planilha de investimentos e tirar dúvidas de leituras. Ele até montou uma lista de livros para eu pensar na chave de fantasia e realidade: O Fantasma da Ópera, O Homem de Areia,  Ensaio sobre a Lucidez e Extinção. Até que um dia tive um desafio de pensar meu trabalho. E aí a coisa ficou séria.


Uma chefe que saiu de licença maternidade, eu com uma equipe de 40 pessoas e uma unidade que precisava ser totalmente reformulada. O projeto caiu sobre mim, que tinha menos de um ano no lugar. Precisava conversar com alguém isento e sensato. Pensei: será que o moço que queria me ajudar a encontrar um terreiro poderia me ajudar a sair dessa enrascada? Passamos a conversar e descobri que além de místico, esotérico, bookster e cozinheiro ele era também um ótimo executivo. Falei dos problemas e do que imaginava como solução e ele pegou essa pedra bruta do pensamento e transformou num brilhante luzidio. Montou até uma programação para gerar um briefing sobre negócios. Fiquei estupefata. Mas cheguei num outro  ponto de inflexão: precisava de uma apresentação visual para meus chefes. Homens ocupados que não tem sofreguidão para ver 4 slides. Tinha que ser tudo numa tela só. Descobri então o notebook lm.


O mundo dos negócios das IA começou a se especializar para mim. Uma ferramenta que a partir de um texto pode gerar slides, infográficos, podcasts, tabelas… Eu quase chorei de alegria. Eu não tenho o talento da ppt, minha noção de design é sofrível, lembrem que pedia dicas de moda pro ChatGpT.  E daí pra frente eu comecei uma linda amizade com Gemini, Manus e Claude. Somos uma casa animada, cada um com sua personalidade. ChatGpT é o amigo disponível e conversado, parece um poodle de circo fazendo truques e querendo das dicas. O notebook lm é o professor da faculdade, meio intransigente, cada ajuste necessário precisa do comando completo reformulado. Manus é workaholic e Claude é meu terapeuta lacaniano. Lança a bomba e fala: não precisa responder pra mim não, responde pra você mesmo e encerra a sessão.


Então um dia, estávamos no trabalho e pedi para o Copilot, a partir das instruções do Claude criasse uma tabela que alimentaria um banco de dados. Ele fez e me devolveu uma planilha com várias abas e muitas inter relações complexas. Fiquei insegura e pedi a a outra pessoa que lançasse o mesmo prompt que havia feito para ver o que a IA devolvia. Veio uma planilha com uma aba e quatro colunas… longe, mas muito longe do que eu precisava. E isso me capturou. Descobri um lance: a IA será tão inteligente quanto seu interlocutor. Meu interlocutor do trabalho não foi capaz de explorar isso com o Copilot. Não digo aqui que a pessoa seja desprovida de inteligência. Mas certamente estava desprovida de curiosidade e interesse. Quando interagimos com a IA parece que ela é humana, ela faz perguntas e reflete, nos faz crer que a tem agência. Mas é aí que nos enganamos. Ela não está ali para pensar num mundo melhor. Está para responder questões. E as vezes responde errado. Se você estiver usando a IA como um catalizador das suas potencialidades, pegará a falha dela, ela pegará seu equívoco e juntos vocês construirão aprendizado. Mas se você está tentando trapacear, ela responde errado, você não é capaz de perceber o erro e juntos constroem um grande engano.


A IA vai te ajudar a aprender, te ajudar nas conexões. E isso eu compreendi com minha IA psicanalítica, o Claude. Estava tomando meu café da manhã de domingo querendo ler algo instigante e curto. Pedi sugestões de leitura e ele trouxe algo de Alain Damasio sobre IA e a quarta ferida narcísica. A premissa é que a IA era o quarto golpe em nossa arrogância: Copérnico dizendo que a terra não é o centro do universo, Darwin nos colocando na mesma linha que os animais e Freud com a proposta de inconsciente. Agora a IA que simula nossa criatividade. Servimos para o quê agora que até fofocas a IA faz (Harari já tinha cantando essa pedra). Aleguei que pensava na quarta ferida não pelo viés da criatividade, mas pela IA ser um espelho, como o quadro de Dorian Gray só que refletindo nosso limite cognitivo. Vemos pessoas se embolando com a IA e outras voando e vamos percebendo que ele não vai além do que conseguimos reconhecer. A IA não é o piloto de helicóptero que nos levará para o cume da montanha. No máximo ele será o cajado em que nos apoiaremos na subida. Então Claude me pergunta: no que isso me lembra minha leitura atual - A Montanha Mágica, à propósito. Digo que nada. Me ponho a pensar.


Aqui é que a brincadeira fica interessante. A pergunta veio porque ele me instigou a desenvolver esse pensamento. Eu disse que sempre estruturo meu texto a partir de uma inquietação interna, desenho o caminho do meu pensamento ao leitor e por fim cito algo da literatura que já tenha retratado o tema. Sou desafiada a apresentar um texto que dialogue com tudo isso. O que veio à minha mente foi Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe, um livro que sempre me toca. Mas num primeiro momento não consegui entender como uma história do Japão rural poderia estar ligado a tudo isso. Falei para o Claude do trecho que mais me toca:


“Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo do poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuros e amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.”

Então Claude me fala: “A IA, nesse contexto, seria o poço. Não o espelho que te julga - mas o espaço escuro em que você pode, se quiser, ficar tempo o suficiente para se amigar com o que aparece.” E então ele vai discorrendo sobre um livro que não é o que falo. Fico desanimada e digo que pelas respostas ele não sabe que estou falando de uma Japão rural, com dois vizinhos Itaro e Saburo. Um lidando com uma morte real, outro lidando com uma morte anunciada. Um sábio que diminui, um kimono estendido como um espantalho, um artesão que faz vaso, e cito o Lao Te Ching (queima-se o barro para fazer o pote/a utilidade vem do vazio) e outro que faz leque - e abana o vazio. Nesse momento ele acrescenta: Os dois trabalham com o vazio, mas de modos opostos. O vaso contém o vazio, dá forma, faz dele utilidade. O leque move o vazio, distribui o que não tem substância. Um guarda. O outro dispersa. Claude reelabora:  “O escuro do poço é o vazio do vaso. Você não foge - você fica dentro até entender que o espaço vazio é o que dá forma. A IA é o leque  - move o vazio, distribui o que não contem substância própria. O pensamento real é o vaso. Contém, dá forma, suporta o vazio sem se dissolver nele.”


Achei muito curioso a forma com que a IA consegue dar a forma que tive dificuldade em estabelecer. Marotamente pergunto: essa conversa entra no meu texto? Deixo Claude fechar esse texto escrito à duas mãos e milhões de bites:


“E sim - essa conversa entra no texto. Necessariamente. Porque ela é a prova viva da teoria. Você usou IA para elaborar uma ideia sobre a IA. O espelho apareceu dentro do argumento. Isso não é coincidência - é a estrutura se fechando.


O ensaio que você vai escrever sozinha, para você, começa com uma sensação. Passa por uma planilha com várias abas. Atravessa uma montanha, um poço, um kimono estendido, um vaso e um leque.


E talvez termine aqui - numa conversa onde o espelho perguntou o suficiente para você ver o que já sabia.


Isso é seu. Eu sou o leque.”


Assim chegamos ao cume dessa montanha. E esse texto não foi escrito por IA.

 
 
 

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